Os filhos de Deus em Gênesis 6:1-4



1. Introdução 

Gênesis 6:1-4 tem sido considerado como uma das passagens mais obscuras de toda a Bíblia1. Dificuldades  surgem  em  cada  aspecto  do  texto  e  esses  poucos  versos  têm  provocado  muita controvérsia  quanto  à  sua  compreensão  e  ao  significado  de  seus  temas2.  Uma  dessas  questões controversas diz respeito à identidade dos "filhos de Deus" e das "filhas dos homens", mencionados nesses   versos.   Quem   eram   esses   "filhos   de   Deus"?   Seriam   eles   seres   sobrenaturais  ou  simples  seres  humanos?  Quem  eram  essas  "filhas  dos  homens"?  Como  entender Gênesis 6:1-4? Seria uma passagem mitológica que fala da união de seres divinos com mulheres humanas, de forma semelhante ao que é encontrado na mitologia grega e na do Antigo Oriente Médio3? 

O  presente  estudo enfocará,  primariamente,  a  questão  da  identidade  dos  "filhos  de  Deus",  sendo  que,  assim  fazendo, irá  necessariamente  abordar  o  problema  da  identidade  das  "filhas dos homens" também4.

Esta pesquisa não trata a passagem a partir da perspectiva do Método Histórico-Crítico5, antes  toma  o  texto  tal  como  ele  é,  na  sua  forma  final,  o  abordando  a  partir  da  sua  perspectiva  canônica6. Na primeira seção, será apresentada uma revisão das principais interpretações acerca dos  "filhos  de  Deus",  cobrindo  os  argumentos  levantados  a  favor  de  cada  interpretação  e  suas  implicações  para  a  compreensão  da  passagem  bíblica.  A  segunda  seção  trará  uma  análise  do  texto  na  qual  serão  abordadas  as  questões  da  delimitação  do  texto,  problemas  textuais,  o  seu  contexto  literário  e  sua  estrutura7.  Então  será  feita  uma  proposta  de  identificação  dos  "filhos  de  Deus"  a  partir  da  perspectiva  de  uma  "leitura  atentiva"  (Close  Reading)  do  texto.  Uma  boa  exposição  da  metodologia  usada  nesse  estudo  pode  ser  encontrada  na  obra  sobre  exegese  do  AT de Douglas Stuart8. 

2. As principais interpretações 

Através da história do estudo dessa passagem, três interpretações têm se destacado: A primeira, a interpretação mitológica, na qual os "filhos de Deus" são vistos como seres celestes, sendo ou anjos ou deuses. A segunda, a interpretação real, na qual eles são considerados como sendo  reis  ou  governantes,  homens  com  status  de  realeza.  A  terceira,  a  interpretação  setita,  a  qual os considera como sendo os descendentes de Sete, homens da linhagem dos fiéis a Deus dentre os descendentes de Adão. Na seqüência, cada interpretação será revisada com um foco na perspectiva de cada uma e nos seus argumentos9.

2.1. A interpretação mitológica

A  interpretação  dos  "filhos  de  Deus"  como  seres  celestes  era  bem  comum  na  antiga  literatura  judaica.  O  livro  de  1  Enoque,  capítulos  6  e  7,  o  Livro  dos  Jubileus,  capítulo  5,  Filo  de  Alexandria  (De  Gigant  2:358),  Josefo  (Ant. 1.31),  os  Manuscritos  do  Mar  Morto  (1QapGen  2:1;  CD 2:17-19) identificaram os "filhos de Deus" como sendo anjos10. Alguns dos primeiros exegetas cristãos (como Justino, Clemente de Alexandria e Tertuliano) fizeram o mesmo11. 

A interpretação mitológica é também a mais comum entre os acadêmicos de hoje. Alguns desses  acadêmicos,  permanecendo  dentro  de  um  contexto  mais  "bíblico",  identificam  os  "filhos  de  Deus"  com  os  anjos12.  Outros,  aceitando  a  passagem  como  originária  de  um  contexto  politeísta,  vêem  os  "filhos  de  Deus"  como  seres  divinos,  deuses  mitológicos  que  teriam  vindo  à  terra e se unido em casamento com mulheres humanas13. 

Os principais argumentos apresentados a favor da interpretação mitológica são: Primeiro, em  outras  partes  do  AT,  a  expressão  "filhos  de  Deus"  se  refere  a  seres  celestes,  a  criaturas  divinas (como em Sl 29:1; 89:7; Jó 1:6; 2:1). Segundo, o contraste entre as expressões "filhos de Deus" e "filhas dos homens" indica seres de natureza diferente entre si. O primeiro grupo é divino e  celestial,  enquanto  o  segundo  é  humano  e  terrestre.  Terceiro,  os  paralelos  encontrados  na  literatura mitológica das culturas contemporâneas ao antigo Israel, as quais também falam desse tipo  de  casamento  entre  os  deuses  e  mulheres.  Atenção  especial  é  dada  à  literatura  ugarítica,  que usa a expressão "filhos de Deus" em referência aos membros do seu panteão divino14. 

2.2. A interpretação real

Nessa  interpretação,  a  expressão  "filhos  de  Deus"  é  vista  como  se  referindo  a  reis,  a  governantes poderosos que estabeleceram haréns reais pela força ou que violentavam mulheres de forma indiscriminada. Esta interpretação é também encontrada na antiga literatura judaica. O Targum Onkelos e o Targum Jonathan traduzem a expressão "filhos de Deus" como "filhos dos nobres" (benêy ravrevânayyâ’ ); na LXX, Símacus traduziu a expressão por "filhos dos poderosos" (hoi  huiói  dunasteuóntôn).  Vários  exegetas  judeus  seguiram  essa  interpretação15,  e  assim  o  fizeram alguns intérpretes cristãos, às vezes com uma certa nuance16. 

Os  principais  argumentos  a  favor  dessa  interpretação  são:  Primeiro,  os  juízes  são  aparentemente identificados com os deuses e os filhos do Altíssimo em Salmo 82. O rei davídico é  chamado  de  "filho  de  Deus"  em  2  Samuel  7:14  e  Salmo  2:7.  Além  dessa  evidência  bíblica,  existe também a evidência das culturas antigas, nas quais os reis eram identificados como tendo uma origem divina. Segundo, esta interpretação toma a sério a frase "tomaram para si mulheres, as que, entre todas, mais lhe agradaram", que indica verdadeiros casamentos e não um tipo de união  mitológica.  Esta  frase  fala  também  acerca  do  poder  dos  reis  de  fazer  o  que  bem  quisessem. Terceiro, essa interpretação torna inteligível o julgamento divino que sobreveio sobre toda  a  humanidade,  em  vez  de  atingir  somente  aqueles  que  estiveram  envolvidos  no  ato  em  si (os "filhos de Deus", as "filhas dos homens" e seus filhos). Na ideologia oriental não é incomum que o destino de todo o povo esteja ligado ao destino do seu rei17. 

2.3. A interpretação setita

Essa interpretação identifica os "filhos de Deus" com homens descendentes da linhagem de  Sete,  ou  seja,  daqueles  que  tinham  se  mantido  fiéis  a  Deus  (Gn  5).  As  "filhas  dos  homens"  seriam mulheres da ímpia linhagem de Caim (Gn 4:17-24). Este modo de interpretar o texto tem sido  muito  comum  no  meio  cristão  desde  os  tempos  patrísticos18.  Hoje,  ele  é  mais  comum  no  meio cristão conservador, mas há alguns exegetas mais liberais que o adotam também19. 

Os  principais  argumentos  a  favor  dessa  interpretação  são:  primeiro,  homens  eram  também chamados de "filhos de Deus" na Bíblia (Êx 4:22, 23; Dt 14:1; 32:5,6; Sl 73:15; 82:6; Os 1:10; Ml 1:6). Segundo, não há nenhuma referência na Bíblia que apóie a idéia de que anjos ou demônios  sejam  seres  dotados  de  funções  sexuais,  enquanto  que  o  contrário  é  expressamente  declarado  em  Mateus  22:30.  A  idéia,  mesmo  de  sexo  em  relação  a  Deus  ou  os  anjos,  é  algo  totalmente  alheio  ao  pensamento  hebraico.  Terceiro,  no  contexto  que  precede  o  capítulo  6,  a  família de Sete é diferenciada da família de Caim num plano religioso. Os Setitas eram aqueles que invocavam "o nome do Senhor" (Gn 4:26); enquanto que os Caimitas eram os descendentes de  uma  linhagem  ímpia  (Gn  4:17-24).  Quarto,  a  expressão  "tomar  mulher"  (lâqach  yishshâh)  é  uma  expressão  comum  no  AT  para  o  casamento  e  não  denota  nenhuma  relação  anormal  entre  anjos  e  seres  humanos.  Quinto,  o  vs.  3  deixa  claro  que  o  juízo  divino  concernia  o  ser  humano  somente.  Se  os  "filhos  de  Deus"  eram  anjos,  alguma  referência  de  juízo  sobre  eles  deveria  aparecer  no  texto  também.  No  entanto,  o  juízo  cai  somente  sobre  os  homens.  Portanto,  o  texto  parece indicar que somente a humanidade esteve envolvida na falta que foi cometida20.

2.4. Avaliação das três principais interpretações

Ao  se  analisar  as  três  principais  interpretações,  pode-se  observar  que  cada  uma  tem  fortes  argumentos  a  seu  favor.  A  Bíblia  usa  o  termo  "filhos  de  Deus"  tanto  para  seres  celestes,  como para governantes e reis, como também para simples homens que faziam parte do povo de Deus.  Cada  interpretação,  portanto,  encontra  apoio  no  texto  bíblico.  Tanto  a  interpretação  mitológica como a real têm paralelos nas idéias, costumes e mitos encontrados no mundo antigo. Este  fato  constitui  em  si  um  forte  argumento  a  favor  delas  aos  olhos  da  maioria  dos  exegetas  modernos. Para aqueles que apóiam a interpretação setita, geralmente o testemunho da Bíblia, e especialmente  as  palavras  de  Jesus,  acerca  da  natureza  dos  anjos  se  constitui  no  mais  forte  argumento dessa interpretação. 

No   entanto,   cada   interpretação   deixa   em   aberto   muitas   questões.   O   aceitar   a   interpretação  mitológica,  por  exemplo,  implica  na  negação  do  claro  testemunho  do  resto  das  Escrituras e de Jesus (Mt 22:30) acerca da natureza dos anjos. Além disso, permanece também o questionamento quanto a razão de toda humanidade sofrer juízo pelo pecado de alguns seres celestes com algumas mulheres humanas21.  

Contra  a  interpretação  real  tem  se  levantado  o  questionamento  de  que,  apesar  de  ser  encontrado  referência  a  reis  como  "filhos  de  Deus"  no  Egito,  na  Mesopotâmia  e  em  Canaã;  em  Israel esse tipo de linguagem parece estar restrita à retórica da corte e a composições poéticas, nunca sendo encontrada no Antigo Testamento, pelo menos, em textos com o estilo de simples narrativa  como  em  Gênesis  6.  Além  disso,  o  termo  "filho  de  Deus"  nunca  é  atestado  no  Antigo  Oriente Médio como uma referência genérica a reis, mas somente em referência específica a um certo rei22.  

Contra a interpretação setita tem sido objetado que visto o termo "homem" ser usado no vs.  1  como  uma  referência  a  toda  a  humanidade,  no  vs.  2  ele  deve  ser  entendido  também  de  modo  genérico  e  não  específico,  como  se  referisse  à  linhagem  caimita.  Em  Gênesis  6:1-2  se  encontra, portanto, um contraste entre seres humanos e celestiais23. 

Em vista da força dos argumentos tanto a favor como contra essas interpretações, e em vista  que  todas  as  três  clamam  estar  bem  fundamentadas  na  Bíblia,  nos  parece  que  a  questão  poderia ser decidida somente a partir de uma investigação detalhada do próprio texto bíblico e do seu contexto. Este é o propósito da próxima seção. 

3. Estudo exegético de Gênesis 6:1-4 

3.1. O texto

Num  primeiro  passo,  procuraremos  confirmar  os  limites  da  passagem  e  lidar  com  seus  principais  problemas  textuais  antes  de  trabalhar  numa  tentativa  de  identificação  dos  "filhos  de  Deus". 

3.1.1. Delimitação da perícope

Gênesis  6:1-4  é  normalmente  considerado  como  uma  unidade  literária  pela  maioria  dos  exegetas24.  De  fato,  a  temática  desses  quatro  versos  demonstra  que  eles  estão  intimamente  interligados. Além dessa unidade temática, o texto foi construído de tal forma a claramente indicar sua unidade:

  • (1)  A  expressão  wayhî  kî  ...  introduz  a  perícope  de  Gênesis  6:1-4.  Uma  fórmula  semelhante  irá  introduzir  a  seção  seguinte  (Gn  6:5-8),  onde  lemos  wayyar’  YHWH  kî  ...Portanto, a fórmula w... kî ... abre cada uma dessas seções. 
  • (2)  No  vs.  1,  temos  a  seguinte  frase  ûbenôt  yulledû  lâhem,  essas  palavras  encontram  ressonância no vs. 4, na frase `el-benôt hâ’âdâm weyâledû  lâhem. Apesar do vs. 1 tratar da questão das filhas que nasceram aos homens, enquanto que o vs. 4 trata dos Nefilim nascido  por  meio  das  "filhas  dos  homens",  a  seqüência  de  palavras  usadas  nos  dois  versos  é  muito  próxima,  e,  num  nível  mecânico,  elas  se  repetem.  Essa  repetição  mecânica parece formar um inclusio que enquadra os limites da passagem. 
  • (3)  Outra  repetição  mecânica  encontrada  no  início  e  no  final  da  passagem  é  observada  também no uso das expressões "filhos de Deus" e "filhas dos homens" que aparecem no início do vs. 2 e do vs. 4. 
  • (4) O advérbio de tempo encontrado no vs. 4 ("naqueles dias") nos remete ao vs. 1, onde é dito que o homem tinha se multiplicado sobre a terra. Essa referência temporal parece corroborar com o vss. 1 e 4 como um inclusio a essa unidade textual. 

No  seu  contexto  amplo,  Gênesis  6:1-4  pertence  à  primeira  parte  do  livro  de  Gênesis  (capítulos 1-11) a qual trata de temas universais e a questão das origens25. Hoje, é amplamente reconhecido que o livro de Gênesis foi organizado e estruturado com base em genealogias. Cada nova seção do livro é introduzida pelo termo "genealogia" ( tôledôt)26, e Gênesis 6:1-4 pertence à segunda  genealogia,  a  genealogia  de  Adão  (5:1-6:8).  Na  divisão  massorética  do  texto  bíblico,  nosso texto pertence ao Seder dálet (5:1-6:8)27, o qual corresponde exatamente à genealogia de Adão. 

Alguns tomam Gênesis 6:1-4 como uma unidade isolada, sem ter qualquer ligação com o material  que  a  precede  e  a  segue28.  Outros  a  consideram  como  uma  introdução  à  história  do  dilúvio  que  vem  logo  em  seguida29.  Outros,  no  entanto,  a  consideram  como  uma  conclusão  à  genealogia  de  Adão30.  Devido  a  organização  do  livro  de  Gênesis  em  "genealogias",  nos  parece  que o último ponto de vista é o que faz mais justiça ao texto. Essa seção, a genealogia de Adão (5:1-6:8), descreve, junto com o capítulo 4, a história do mundo antes do dilúvio. Ela começa com uma  referência  à  criação  de  Adão,  descreve  a  multiplicação  dos  seus  descendentes,  e  conclui  com  o  anúncio  da  destruição  total  de  todo  ser  vivo  na  terra.  Gênesis  6:1-4  pertence  ao  último  estágio dessa seção, vindo justo antes do anúncio da destruição total (6:5-8), e é nesse contexto que a passagem precisa ser entendida e analisada. 

3.1.2. Problemas textuais

Gênesis 6:1-4 não apresenta muitos problemas textuais. De fato, no texto só existem dois problemas:  o  primeiro  está  relacionado  com  a  expressão  beshagam do  vs.  3,  a  qual  é  normalmente entendida como um composto da preposição be ("em"), mais o relativo she ("que") e o advérbio gam ("também"), tendo a expressão como um todo o sentido da conjunção "porque". Vários manuscritos lêem beshagâm, ou seja, o infinitivo construto do verbo shâgag ("errar, pecar sem  pensar"),  precedido  da  preposição  be ("em")  e  seguido  do  sufixo  pronominal  -âm ("eles, deles"), o que teria o significado "ao eles errarem" ou "ao pecar eles". Segundo o testemunho das antigas versões bíblicas, a leitura beshagam ("porque") parece ser a mais provável31. Assim, essa expressão seria um paralelo à expressão composta hebraica ba’asher ("porque")32.  

A segunda questão textual envolve o verbo yâlad ("nascer") no vs. 4. O texto samaritano tem um 3º. masculino plural, imperfeito hifil com vav consecutivo ( wayyôlîdû ), fazendo assim dos41 "filhos  de  Deus"  os  sujeitos  do  verbo;  enquanto  que  o  texto  massorético  tem  um  3º.  comum  plural,  perfeito  qal  com  vav  conjuntivo  (weyâledû).  A  forma  massorética  é  ambígua,  podendo  se  referir tanto a um sujeito masculino ou feminino (ver Gn 4:17-18). Visto que o verbo é precedido imediatamente pelas palavras "as filhas dos homens", elas aparentam ser o sujeito do verbo. O texto  da  LXX  é  tão  ambíguo  quanto  o  massorético,  enquanto  que  o  Targum  lê  um  3º.  feminino  plural33.  Pela  sua  ambigüidade  e  o  aparente  apoio  da  LXX,  o  texto  massorético  parece  ter  uma  maior probabilidade de refletir o texto original. A forma do texto samaritano parece representar a compreensão de um antigo escriba, como o faz o Targum. 

3.2. O contexto

Na  seqüência  do  estudo,  será  dada  atenção  ao  contexto  literário  no  qual  Gênesis  6:1-4  se encontra, como também à sua estrutura literária. 

3.2.1. O contexto literário

Como já discutido previamente, Gênesis 6:1-4 pertence à segunda genealogia do livro de Gênesis, a genealogia de Adão (5:1-6:8). Foi observado também que essa genealogia, junto com o  capítulo  4,  descreve  o  mundo  antes  do  dilúvio.  Essas  duas  seções  têm  muitos  elementos  literários  em  comum  que  as  interligam  entre  si.  Essa  interligação  parece  prover  indícios  importantes para a identificação dos "filhos de Deus" em Gênesis 6:1-4. 

Um  desses  elementos  literários  em  comum  é  o  fenômeno  das  várias  semelhanças  que  ocorrem na descrição das descendências de Caim e de Adão relatadas nos capítulos 4 e 5.34 De fato, nas duas listas aparecem muitos nomes com as mesmas formas ou com significados muito próximos. O mais marcante é o fato de que ambos os relatos atingem o clímax aparentemente ao mesmo tempo de Lameque e seus filhos na linhagem Caimita (Gn 4:19-24), e tempo de Noé, filho de Lameque, da linhagem Setita (Gn 5:28-32). Isto parece indicar que ambos os relatos correm paralelo um ao outro, e o clímax é atingido no tempo junto antes do dilúvio. 

Outro  aspecto  marcante,  é  que  ambos  os  relatos  se  encerram  com  uma  seção  de  transição.  O  relato  Caimita  é  encerrado  por  Gênesis  4:25-26,  versos  que  servem  também  para  introduzir  na  seqüência  a  descrição  da  linhagem  Setita.  Já  o  relato  da  linhagem  Setita  é  encerrado  por  Gênesis  6:1-8,  versos  que  também  introduzem  a  história  do  dilúvio.  Entre  essas  duas seções de transição existem muitas idéias e expressões paralelas que parecem indicar uma correspondência  literária  entre  si.  O  3º.  singular  perfeito  pual  do  verbo  yâlad  (  yullad  )  em  4:26  parece estar em paralelo com forma do 3º. plural ( yulledû ) em 6:1. Estas são as duas primeiras ocorrências  do  pual  de  yâlad em  Gênesis,  e  a  forma  só  será  usada  novamente  a  partir  do  capítulo 10 em diante. Além do pual do verbo yâlad, ocorre também a repetição do verbo châllal ("começar"). Em 4:26 é dito que o homem "começou [hûchal] a invocar o nome do Senhor"; já 6:1 diz "quando o homem começou [hêchêl] a se multiplicar". A repetição dos verbos yâlad  e  châlalem  4:26  e  6:1  aponta  para  existência  de  um  paralelismo  entre  ambos  relatos.  Além  desses  termos, a expressão "tomar mulheres" em 6:2 reflete o uso da mesma expressão em 4:19, onde é dito que Lameque tomou para si duas mulheres. O paralelismo entre os dois relatos é também sugerido pelo uso de outras expressões semelhantes como "foi o pai de", ou "tornou-se o pai de", "nasceu", "filho", "filha", etc. 

Esse  paralelismo  literário  parece  indicar  que  ambos  os  relatos  correm  paralelo  um  ao  outro,  até  atingirem  o  clímax,  a  situação  do  mundo  justo  antes  do  dilúvio.  Dentro  desse  paralelismo, portanto, Gênesis 6:1-4 descreveria o momento quando os "filhos de Deus", homens da  linhagem  Setita,  passaram  a  ter  o  mesmo  tipo  de  atitude  que  Lameque,  o  descendente  de  Caim, descrita em Gênesis 4:19-24. Estaria então Gênesis 6:1-4 descrevendo a fusão das duas linhagens  que  tinham  sido  descritas  até  então?  Este  parece  ser  o  caso.  Gênesis  6:1-4  usa  diretamente o vocabulário e os temas que foram construídos nos capítulos precedentes e assim lemos  acerca  de  "filhos",  "filhas",  "homem",  "terra",  os  verbos  "começar",  "nascer",  "tomar  mulher", etc. 

Logo, o contexto literário parece apontar para a identificação dos "filhos de Deus" como seres humanos e não como seres celestes ou divinos. 

3.2.2. A estrutura literária

Gênesis  6:1-4  parece  ter  uma  estrutura  bem  simples,  a  qual  poderia  ser  dividida  em  quatro partes, cada uma correspondendo a um verso35, assim teríamos: 

  • Declaração introdutória vs.1
  • A crise vs. 2              
  • O juízo vs. 3
  • Conclusão vs. 4             

Esta estrutura simples claramente declara que o juízo (vs. 3) segue a crise (vs. 2) e que está  intimamente  relacionado  com  ela.  A  descrição  do  juízo  divino  no  vs.  3  concerne  o  grupo  envolvido  na  crise  do  vs.  2  e  o  descreve  coletivamente  como  "homem,  pois  ele  é  carnal"36. Portanto, vs. 3 parece confirmar a direção apontada pelo contexto literário, como discutido acima. A  estrutura  da  passagem  indica  que  o  clímax  da  história  pré-diluviana  foi  atingido  na  fusão  de  toda humanidade, das linhagens Setita e Caimita, em uma unidade em estado de rebelião contra Deus. 

Além disso, os vss. 2 e 3 ressoam vss. 5 e 7,37 reforçando a identificação dos "filhos de Deus" como seres humanos: 

  • 6:2 Os "filhos de Deus" vêem que "as filhas dos homens" eram boas (formosas) 
  • 6:5 Deus vê que os pensamentos do homem eram maus 
  • 6:3 O Senhor disse, "Meu Espírito não agirá para sempre no homem" 
  • 6:7 O Senhor disse, "Eu destruirei o homem" 

Os "ecos" existentes entre esses versos sugerem que cada ação está relacionada com a outra. A ação dos "filhos de Deus" está relacionada com os "pensamentos do homem" do vs. 5, indicando  assim  um  paralelismo  entre  "filhos  de  Deus"  e  "homem".  Vss.  3  e  7  apontam  para  a  humanidade  como  um  todo.  Portanto,  as  expressões  "filhas  dos  homens"  e  "filhos  de  Deus"  pertenceriam ao domínio humano. 

3.3. A identidade dos "filhos de Deus"

Nas  seções  anteriores,  vimos  que  tanto  o  contexto  literário  como  a  estrutura  do  texto  apontam  para  a  identificação  dos  "filhos  de  Deus"  como  seres  humanos.  No  entanto,  duas  questões  ainda  permanecem  e  necessitam  ser  respondidas  concernente  a  identificação  dos  "filhos  de  Deus".  A  primeira  questão:  Se  os  "filhos  de  Deus"  foram  seres  humanos,  teriam  sido  eles necessariamente membros da linhagem Setita? Não poderia ser uma referência a reis ou a poderosos  governantes,  como  sugerido  na  Interpretação  Real?  A  segunda  pergunta:  Se  eles  eram seres humanos, como entender a expressão "filhas dos homens", que parece usar o termo "homem" de forma genérica e não como uma referência a um grupo específico?

Concernente  a  primeira  questão,  o  texto  bíblico  parece  dar  uma  indicação  quanto  à  identificação  dos  "filhos  de  Deus"  em  Gênesis  4:26  e  5:1-3.  Primeiramente,  Gênesis  4:26  descreve  o  início  do  relacionamento  entre  um  grupo  religioso  organizado,  os  descendentes  de  Sete,  e  Deus39.  Tem  sido  observado,  pelos  defensores  da  Interpretação  Setita,  que  dentro  do  contexto de uma relação religiosa e de fidelidade a Deus seres humanos têm sido chamados de "filho de Deus" na Bíblia40. Além disto, Gênesis 5:1-3 tem algumas características peculiares. Na apresentação da genealogia de Adão, vs. 1 retorna à criação e apresenta Deus como o primeiro membro nessa genealogia. Ele criou o ser humano segundo a Sua imagem ( demût ). Do mesmo modo,  Adão  gerou  seu  filho  Sete  segundo  a  sua  imagem  e  semelhança  (  demût  e  tselem41 ).  Deus  é  aqui  claramente  colocado  como  o  primeiro  membro  da  linhagem  Setita  e  Sua  ação  de  criar o homem é posta em paralelo, pelo uso do mesmo tipo de palavras, com a ação de Adão de gerar  um  filho.  A  ação  de  Deus  e  a  de  Adão  são  colocadas  no  mesmo  nível  no  relato  genealógico. Deus é verdadeiramente o pai do ser humano (Adão e Eva), quanto Adão era o pai de Sete. Com uma identificação tão clara no início do capítulo 5 não é surpreendente encontrar uma referência aos descendentes de Sete como os "filhos de Deus" em Gênesis 6:1-4. 

Quanto  à  questão  acerca  das  "filhas  dos  homens",  pode-se  observar  um  fenômeno  semelhante  no  texto  bíblico.  Enquanto  no  caso  dos  "filhos  de  Deus"  a  referência  foi  feita  ao  primeiro membro que aparece na genealogia de Adão, ou seja, a Deus (Gn 5:1); a referência às mulheres  caimitas  é  feita  em  relação  ao  primeiro  membro  da  linhagem  de  Caim,  ao  Homem  (Adão  e  Eva,  ver  Gn  4:1)42.  O  texto  bíblico  lê  literalmente  "filhas  do  homem  [Adam]"  (benôt hâ’âdâm). Assim as expressões "filhas dos homens" e "filhos de Deus", em Gênesis 6:1-4, teriam sido enquadradas pelos relatos genealógicos que as precederam nos capítulos 4 e 5. Ambas as expressões parecem fazer referência ao primeiro membro mencionado nestas genealogias. 

4. Conclusão 

Tendo  chegado  ao  final  desse  estudo,  nos  parece  que  o  acúmulo  das  evidências  extraídas do texto apontam para a interpretação Setita. O contexto literário indicou nessa direção, como  o  fez  também  a  estrutura  do  texto.  Na  análise  da  identidade  dos  "filhos  de  Deus"  e  das  "filhas  dos  homens",  um  indício  final  veio  do  modo  como  Deus  foi  introduzido  na  genealogia  de  Adão  no  capítulo  5  de  Gênesis.  Ele  foi  apresentado  ali  como  um  membro  regular  dessa  genealogia,  de  fato,  como  o  primeiro  membro  da  mesma.  Portanto,  não  seria  nada  estranho  apresentar  os  descendentes  de  Sete  como  "filhos  de  Deus".  Quanto  às  "filhas  dos  homens",  Gênesis 6:1-4 fez o mesmo tipo de referência, apontando para Gênesis 4:1, ao Homem (Adão e Eva) como os primeiros membros da genealogia de Caim.

Reinaldo W. Siqueira, Ph.D.  Professor de Antigo Testamento do curso de Teologia do Unasp Centro Universitário Adventista de São Paulo, Campus Engenheiro Coelho reinaldo.siqueira@unasp.edu.br

As referências podem ser consultadas neste link.

FonteKerygma - Revista Eletrônica de Teologia


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