
Redes sociais digitais são sociais ou, neste momento, restringem-se a apenas redes digitais?
Nos últimos anos vimos no Brasil uma polarização política entre direita e esquerda, dividindo o seu povo em um patamar jamais presenciado em nível nacional. Isso também está ocorrendo na política interna dos EUA, seu povo está rachado entre democratas e republicanos. Este racha tanto lá quanto aqui se reflete nas famílias, amizades, parcerias, etc. Outro ponto, o expansionismo das fake news, por exemplo, na pandemia recebemos uma enxurrada de curas milagrosas da COVID-19 sem comprovações científicas e teorias da conspiração em torno das vacinas recentemente descobertas e que já estão sendo aplicadas na população mundial. Além de nos últimos anos presenciarmos mentiras (ou teorias) absurdas se tornando reais e se espalhando rapidamente para parte da população. Cito as teorias conspiratórias: a pseudociência do terraplanismo; e o movimento antivacinas; ambos já possuem mais de uma dezena de milhão de seguidores.
Os fatos acima, com exceção ao que é relacionado a esta pandemia porque é após a produção do documentário, são abordados no excelente filme da Netflix. Composto por diversas entrevistas de ex-funcionários graduados de grandes empresas do Vale do Silício revela a estarrecedora realidade virtual, enquanto acompanha a vida de uma família fictícia que não passa de um subproduto neural por trás de grandes códigos cerebrais digitais. Dirigido por Jeff Orlowski o documentário busca entender o funcionamento estrutural algorítmico das redes e porque esta tecnologia persuasiva está vinculada a disseminação de falsas notícias, discursos de ódios, pseudociência, polarização política, ansiedade, vício e outros problemas de saúde, e ligado também a uma taxa alarmante de depressão e suicídio entre crianças, adolescentes e jovens.
O enredo do documentário, e também drama, menciona alguns pontos principais nesta crise de consciência de ex-funcionários destas grandes empresas. Alguns pontos chaves: Se você não está pagando pelo que consome, então você é o produto; fake news se espalham muito mais rápido que uma notícia verdadeira; segurança versus insegurança; as ferramentas digitais são desenhadas para manipular e viciar e; trazem falsas recompensas.

Hoje, vivemos em mundo conectado e com intensas relações com suas tecnologias atuais. As plataformas digitais são moldadas e desenhadas para influenciar e direcionar o comportamento de seus produtos (os usuários). Podemos chamar isso de mensagens subliminares. Entretanto, isto traz como consequência uma avalanche de informações aos usuários que tendem reservar parte de seu tempo a conexão social e que muitas vezes sem perceber já ficaram excessivamente em frente de uma tela digital. Estamos vivenciando uma época de falta de concentração, desinformação e confusão informacional. Imagine:
Mais um dia de trabalho. Você chega à sala e acende a luz. Ajeita coisas na mesa. Senta-se na cadeira, começa a ligar o computador. Celular toca. Tira-o da bolsa, desbloqueia. Lê a mensagem, responde ao remetente. Sai do aplicativo e aproveita para conferir o Instagram. Três curtidas novas na foto de terça. “Hum…” Checa stories recentes, vira o celular de lado. Concentração. Passa vídeos, olha quatro ou cinco fotos do feed. Percebe que já se passaram 15 minutos. “Eita!” Digita a senha no computador, alonga a coluna, gira o pescoço. Abre a caixa de entrada. Apaga newsletters desnecessárias, responde a e-mails. “Acho que hoje vou almoçar no shopping.” Abre o navegador para pesquisar algo, mas se distrai com notícias da página inicial. “Mas bem que tem aquele especial na marmita do Zé.” Celular toca, você dá uma olhada. Vídeo. Assiste baixinho e olha o grupo de WhatsApp dos amigos. “Figurinha nova, deixa eu salvar.” Gatinhos, urso panda, crianças rindo, crianças caindo, vídeo conspiracional contra o presidente. Gol do time X, time Y desce de classe. Fotos, GIFs, cores, sons, ideologias, frases de efeito, ideias, planos. Notificação. Responde à mensagem, olha à hora. “Eita!” Olha para a janela. Pensa nos boletos. “Será que é hoje meu almoço com a Fernanda?” Guarda o celular na gaveta. Confere a lista de afazeres. “Nossa! Preciso fazer tudo isso!” Suspira. “Poxa vida, hoje em dia o tempo está passando rápido demais…”
Esta situação acima descrita pela jornalista Julie Grüdtner não encaixa perfeitamente no dia a dia de muitos de nós? Ao deixarmos as redes sociais, os tantos apps, as notícias, conversas, stories, atualizações tomarem conta de nossa mente e de nosso tempo não estamos sendo direcionados? No excelente livro o Ceticismo da Fé (já fica a dica de leitura), o autor Rodrigo Silva aborda de forma simples que parte da população atual tem se tornado a geração Wikipédia ou Homer Simpson, na qual a verdade procurada nem sempre é a real verdade, a falta de desinformação virou normal e a infantilidade (ou atrofia) do cérebro tem se tornado comum. Outro livro interessante, em sua última versão (a versão antiga também é excelente), é “Nos Bastidores da Mídia” do jornalista Michelson Borges, o qual aborda o perigo da influência das mídias em geral e sua não parcialidade, além do aprisionamento, ou melhor, o direcionamento mental que o espectador recebe das mídias que usufrui. O entrevistados neste documentário citam que os códigos das redes digitais (Facebook, Youtube, Instagram, Google, Pinterest, Twitter, etc) estão direcionando o usuário a desinformação ou a não procurar a verdade por trás dos fatos. Nós como espectadores e usuários destas tecnologias e mídias, aqui incluo a TV junto das digitais, precisamos nos questionar, sair de dentro de nossas cavernas mentais e tentar entender a realidade por trás desta privação imposta e constante inversão de valores.
Cheguei ao ponto em que percebi que frequentemente estava usando meu telefone como uma muleta, para filmar momentos em tempo real, ou que meu telefone vibrava e me tirava do momento enquanto eu tentava ter uma conexão emocional profunda com alguém. (criador do botão “curtir” do Facebook o matemático Justin Rosenstein que apagou suas redes sociais).
Em certo momento da excelente produção da Netflix, Tristan Harris, ex-designer ético do Google, fala sobre a necessidade de a sociedade pressionar as empresas por melhorias: “Podemos exigir que esses produtos sejam feitos de forma humanizada. Podemos exigir não ser tratados como fonte de extração”. Se analisarmos mais a fundo veremos que de alguns anos para cá houve uma explosão no aumento de crianças, adolescentes e jovens com problemas de ansiedade, depressão e suicídio, isso é citado no filme pelo psicólogo social Jonathan Haidt. Mas se procurarmos tais dados fora do contexto do documentário será bem fácil de encontrar. Veja a citação abaixo da Dr. Rosana Alves, neurocientista e psicóloga, em sua entrevista a Revista Vida e Saúde sobre a Geração APP:
Estudos de imagem e atividade cerebrais indicam que conteúdos muito visualizados afetam negativamente regiões de controle cognitivo (o que nos faz decidir não acessar um conteúdo de risco, por exemplo), diminuindo a capacidade de rejeitar conteúdos prejudiciais. Essa perda de controle cognitivo reflete a imaturidade do córtex pré-frontal na adolescência. [É] importante que os responsáveis chequem o conteúdo que os adolescentes estão acessando, pois nessa fase da vida o simples fato de um conteúdo ter sido muito visualizado é o suficiente para diminuir a capacidade de rejeitar conteúdos sabidamente impróprios.
Não há almoço grátis na internet, os algoritmos foram criados para serem direcionados afim de influenciar o produto: VOCÊ. A gratuidade de aplicativos é patrocinada por empresários que veem no usuário (você) também o consumidor final (novamente você). Ou seja, ao mesmo tempo em que você é o produto também é o consumidor. “Se você não está pagando, você é o produto”! O autor dinamarquês Martin Lindstrom em seu livro de neuromarketing, “A Lógica do Consumo”, oferece diversas informações sobre as mensagens subliminares e como o nosso comportamento nos leva a ser agarrados por estas publicidades direcionadas por algoritmos das grandes empresas de redes digitais e seus patrocinadores. O Reforço Positivo Intermitente utilizado pelas plataformas digitais nos condiciona a mudar nosso comportamento, por consequência nos tornamos dependentes, logo, viciados pelas redes.
Conforme o escritor peruano Mario Vargas Llosa, descreve em seu livro “A civilização do espetáculo: uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura”, diversos de nós estão realizando um borboleteio cognitivo, o ser humano, não todos, está condicionado a saltar de uma informação a outra sem a absorver por completo, sem ter atenção, reflexão, paciência e prolongada dedicação àquilo que se lê. Então, o que fazer para deixar de viver nesta bolha digital que embarcamos? O que fazer para não ter mais o tempo roubado pelas redes digitais? O que fazer para deixar a desinformação de lado, ou parar com o borboleteio cognitivo?

Algumas dicas abaixo deixadas pelos entrevistados no documentário ou de especialistas citados neste texto:
- Desconecte. Dedique-se a ler um livro de qualidade por completo, ao ler medite, decifre, contemple e reflita. Deixe de lado a leitura apressada e superficial, a fim de ter um pensamento crítico, contínuo e vigoroso;
- Não use o celular no seu quarto ao ir dormir, dê um descanso ao seu cérebro, “ah, mas eu uso o smartphone como despertador”, então compre um despertador;
- Se puder, use o mínimo de redes sociais e com qualidade, ou não use. Elas viciam, não é a toa que somos chamados de usuários. “Não as use como bengalas ou chupetas” para se mover ou se acalmar. Conforme a Dr. Rosana, seus filhos não precisam tão cedo de redes sociais e se tiverem, monitorem 110% o que estão vendo, lendo, postando e escrevendo;
- Conforme os especialistas criadores destas redes avisam: cuide o material que você acessa e por onde acessa. Fuja de canais na internet que só buscam se digladiarem e não serem propositivos;
- Pesquise, seja cético ao te dizerem algo, vá atrás da verdade para saber se esta informação tem base histórica, científica, etc;
- Pare de ser cópia, não destrua a sua mente! Nascemos originais e morremos cópias – Carl Gustav Young. A mente humana fica raquítica e debilitada, quando se ocupa apenas de assuntos triviais – Ellen White;
- Conforme diversas matérias sobre a Ciência do Bom Viver citadas na Revista e Saúde são assuntos importantíssimos direcionados a nós seres humanos independentes, se puder pesquise, tendo como base os 8 remédios naturais para a nossa vida;
- Os algoritmos são autômatos, ou seja, se movimentam por direção própria. Não deixe os algoritmos controlarem suas escolhas, medite antes de acessar qualquer coisa;
- Abra a janela, aproveita o tempo observando o mundo ao seu redor, se possível, passe mais tempo com sua família. Valorize opiniões, tenha pensamento crítico, leia mais, escute posições favoráveis e contrárias;
- A Netflix é uma bigtech apesar de mostrar uma barbárie das redes neste documentário, o seu material também deve ser pesquisado antes de ser assistido, pois tem muito material de péssima qualidade. Isso vale para tudo nas mídias que você acessa.
- Se alguma série, filme, conteúdos, postagens, livros, etc, possuem mensagens contrárias a Bíblia e a vida do cristão com certeza isto não é bom para você!
- Te lembre do dia de descanso para o corpo e a mente. O SÁBADO foi instituído e criado por Deus para o homem. Deus já sabia desta necessidade de renovação muito tempo antes de você nascer. Reserve este dia para Deus, você e sua família!
O docudrama retrata dilemas sociais nas redes digitais já conhecidos por muitos, sair da internet não será a solução. Porém como você a usa e usufrui das mídias é que vai fazer sair da bolha, sendo menos pragmático e mais cético e racional, caminhe entre as ideias, policie-se e valorize o seu precioso tempo. Leia mais a Bíblia e livros com conteúdo que te enriquecerão mentalmente, culturalmente e espiritualmente. Pratique o cristianismo. Entregue nas mãos de Deus cada ato seu na mídia que você usufruiu. Nós cristãos precisamos ser um exemplo para aqueles que nos rodeiam e deixar que o Espírito Santo nos molde por completo.
Um grande abraço e fique com Deus!
Juan Heidrich

O Dilema das Redes, (The Social Dilemma), Estados Unidos, 2020
Direção: Jeff Orlowski
Roteiro: Jeff Orlowski, Davis Coombe, Vickie Curtis
Gênero: Documentário, Drama
Duração: 89 min
Elenco: Skyler Gisondo, Tristan Harris, Sophia Hammons, Kara Hayward, Chris Grundy, Vincent Kartheiser, Catalina Garayoa, Barbara Gehring e outros.